Seis da manhã, 8 passageiros, onde se incluem dois redactores do nosso jornal embarcam na estação de Entrecampos, Lisboa, numa automotora a caminho da Figueira da Foz. Seis da manhã, seis dos passageiros são na sua maioria trabalhadores que vão a caminho dos seus locais de trabalho, quase todos ficam pelo caminho, nós somos os únicos que iremos percorrer cerca de 200 km desta linha com 124 anos de existência. Duração prevista, cerca de 4 horas.
Aos poucos esta automotora consegue chegar à velocidade de 50 km, cruzando por estações e apeadeiros, – por um deles excedeu a sua velocidade deixando para trás uma passageira. Passageira salva depois de a composição recuar uns bons metros – muitas das estações estão encerradas à hora que passamos e continuam, Malveira é uma delas…os passageiros ficam ao frio neste inverno seco, esperando por um comboio que avança em linha única, trespassando zonas habitacionais, os subúrbios incaracterísticos, muito pouco saloios.
A partir de Bombarral, uma das poucas estações abertas ao público, passando por Torres Vedras, o ambiente dentro da automotora transforma-se literalmente, uma chusma de raparigas e rapazes que com o seu falar alegre ainda um pouco sonolento, vão a caminho das Caldas da Rainha, para escola das Artes, enchem a carruagem. É o fim da primeira parte da nossa viagem, quase duas horas depois de Lisboa.
Em Martingança, estação aberta ao público, as pessoas esperam e desesperam pela chegada do comboio, que será substituído por uma automotora que já se encontra na estação à espera do vagaroso comboio. Seis passageiros entram esbaforidos, um deles, uma jovem, afirma bem alto de que mais uma vez vai chegar ao emprego atrasada, duas horas. A paisagem altera-se, os campos ricos de hortofrutícolas alternam com pinheiros, cimento – os toros e o cimento passeiam-se por esta linha – mais apeadeiros, mais estações fechadas, só os azulejos azuis e brancos, com motivos desenhados da zona, mostra certa alegria ao espaço. Uma delas encontra-se entaipada…medo dos ladrões. A jovem lá sai no seu destino exigindo uma justificação do revisor – esperando que os seus patrões não descontam, desta vez, no seu parco vencimento. O comboio avariado tem de voltar…a passo de caracol…para Lisboa para curar as suas maleitas mais urgentes, tudo porque as oficinas da EMEF da Figueira da Foz, em tempos muito concorridas, foram encerradas.
À hora prevista a automotora parte, é fim de tarde, frio, chegamos a horas às Caldas de Rainha, acompanhados por pouco mais de 10 pessoas que regressam para as suas casas. Nas Caldas esperam-nos 45 minutos para transbordo…para a mesma automotora. Parte a horas, mais uma vez, com o mesmo grupo de alunos que desta vez estão mais descontraídos e afoitos nas suas conversas e larachas entre eles. Uma passageira já nossa conhecida da ida, regressa do seu trabalho pesado e ao mesmo tempo cuidado, de um doente acamado. Aproveita para nos desfiar a sua revolta contra o previsível encerramento do ramal entre as Caldas e a Figueira, contrapondo a necessidade da sua manutenção, porquanto é a sua, e para muitos mais, única possibilidade de chegar ao emprego, e mais em conta (esta mulher trabalhadora ganha 400 euros), mesmo com o aumento já anunciado dos preços. Percebemos que esta mulher está a par das lutas contra o encerramento, – adiado – vigílias, manifestações, abaixo-assinados, tudo tem servido para demonstrar que não existe alternativa séria para centenas de passageiros…durante o verão, afiança-nos a nossa interlocutora, as carruagens enchem-se de turistas para as praias servidas por esta linha. Palavra puxa palavra, chega-se à conclusão se, mais uma vez esse se, a linha fosse dupla, tivesse horários compatíveis, preços concorrentes com o automóvel, muito mais pessoas deixariam o seu transporte individual em casa ou na estação e escolheriam este meio transporte. Mas esse não é e não tem sido e não será, a escolha dos diversos governos que têm passado por S. Bento.
Um cartaz na estação de Entrecampos brilha na noite, apelando à escolha de comboio: “Vá de comboio e poupe assim no ambiente”…tão perverso…seria para rir se não nos apetecesse partir o painel! Ficamos com uma certeza que as pessoas desta região por onde passa a linha do Oeste não está disposta a perder sem luta esta única mobilidade existente nesta região tão mal aproveitada, seja em recursos humanos, seja na agricultura ou na indústria. Temos a certeza de que mais tarde ou mais cedo, elas, e nós, venceremos!
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