Um texto de Carlos Milheiras, retirado do Blogue Os Furúnculos de Pandora, que mostra una exemplar vida de “sucesso” neste país governado por subservientes aos ditames de um país, esse sim de sucesso…é fartar vilanagem!
«O João vive na rua, numa cidade grande, já teve emprego, já teve família, casa, carro, conta no banco.
Agora não tem nada disso; tem uns sacos de plástico com duas mudas de roupa e umas mantas, uns cartões canelados que fazem de cama, arrumados num vão de escada onde dorme, a que ironicamente apelida de casa, tem um cão preso por um cordel à laia de trela, a quem se refere como o parente próximo, às vezes tem fome e, tem sempre muita sede.
O João já teve amigos, agora tem companheiros, na rua não há espaço para grandes amizades.
Já teve saúde, agora tem doenças várias, tantas, que já nem liga, sente-se mal bebe um copo e a coisa passa; só vai às urgências hospitalares quando o frio aperta e precisa de aquecer, mas nunca passa da sala de espera.
O João já viajou, agora não. Agora dá umas voltas pelo bairro de onde quase nunca sai, as maiores distâncias calcorreia-as para se encontrar com os voluntários de alguma obra assistencial que distribuem sopa e alguns géneros sem fazer perguntas, alguns conhecem-no e tratam-no pelo nome, outros ainda mais raros até o chamam Sr. João.
O João já foi respeitado, agora nem se lembra que esse conceito existe.
O João já dominou outras línguas, agora expressa-se num português minimalista; não precisa de mais.
Já teve identificação, carta de condução, cartões de crédito e de débito, cartões multicoloridos e inúteis de inúmeras associações etc.
Agora não tem nada disso os prazos expiraram e ele não os renovou; também para quê?
O único plástico que possui são os sacos que lhe servem de alforges.
O João não existe em teoria, apenas na prática.
Apesar de tudo, o João já teve os seus minutos de fama, foi num Natal, quando se deslocou a uma tenda montada pela Câmara para comer uma posta de bacalhau e receber mantas novas, estavam lá as televisões a acompanhar um ministro qualquer e entrevistaram-no. “Sr. João um sem abrigo da cidade, que nesta data única veio até nós, para que celebremos em conjunto uma ocasião tão especial”. Foi mais ou menos assim que o apresentaram, depois fizeram-lhe umas perguntas e foram para outra tenda, nem sequer se despediram.
O João não tem telemóvel, nem usa as cabines telefónicas do bairro se por acaso precisa de contactar alguém, a maioria das cabines exigem um cartão pré comprado, ou fichas, e ele não tem fundo de maneio para esses luxos.
O João não está inscrito na segurança social, vive do que lhe dão e os esmoleres não passam recibos.
O João bebe, sempre bebeu, mesmo na outra vida, acha mesmo que é a bebida a fonte de todos os seus problemas. Quando bebe, o que quer que venha à rede é peixe, fica horas sentado a contemplar o vazio.
O João vai inevitavelmente morrer em breve, no meio da rua, atropelado, ou cirrótico, ou enfartado…
Vai ser recolhido por uma ambulância, que o vai levar para um hospital central, lá chegado declara-se o óbito, em seguida leva-se o corpo que já foi João para a medicina legal para ser identificado, o que não vai acontecer, por lá fica, ninguém o vai reclamar…
O cão do João irá correr atrás da ambulância, chegará ao hospital e ficará à porta, à espera…»
Mas a luta por uma vida totalmente diferente não pára, a dignidade reconquistada é mais saborosa.
O Povo Vencerá!
«O João vive na rua, numa cidade grande, já teve emprego, já teve família, casa, carro, conta no banco.
Agora não tem nada disso; tem uns sacos de plástico com duas mudas de roupa e umas mantas, uns cartões canelados que fazem de cama, arrumados num vão de escada onde dorme, a que ironicamente apelida de casa, tem um cão preso por um cordel à laia de trela, a quem se refere como o parente próximo, às vezes tem fome e, tem sempre muita sede.
O João já teve amigos, agora tem companheiros, na rua não há espaço para grandes amizades.
Já teve saúde, agora tem doenças várias, tantas, que já nem liga, sente-se mal bebe um copo e a coisa passa; só vai às urgências hospitalares quando o frio aperta e precisa de aquecer, mas nunca passa da sala de espera.
O João já viajou, agora não. Agora dá umas voltas pelo bairro de onde quase nunca sai, as maiores distâncias calcorreia-as para se encontrar com os voluntários de alguma obra assistencial que distribuem sopa e alguns géneros sem fazer perguntas, alguns conhecem-no e tratam-no pelo nome, outros ainda mais raros até o chamam Sr. João.
O João já foi respeitado, agora nem se lembra que esse conceito existe.
O João já dominou outras línguas, agora expressa-se num português minimalista; não precisa de mais.
Já teve identificação, carta de condução, cartões de crédito e de débito, cartões multicoloridos e inúteis de inúmeras associações etc.
Agora não tem nada disso os prazos expiraram e ele não os renovou; também para quê?
O único plástico que possui são os sacos que lhe servem de alforges.
O João não existe em teoria, apenas na prática.
Apesar de tudo, o João já teve os seus minutos de fama, foi num Natal, quando se deslocou a uma tenda montada pela Câmara para comer uma posta de bacalhau e receber mantas novas, estavam lá as televisões a acompanhar um ministro qualquer e entrevistaram-no. “Sr. João um sem abrigo da cidade, que nesta data única veio até nós, para que celebremos em conjunto uma ocasião tão especial”. Foi mais ou menos assim que o apresentaram, depois fizeram-lhe umas perguntas e foram para outra tenda, nem sequer se despediram.
O João não tem telemóvel, nem usa as cabines telefónicas do bairro se por acaso precisa de contactar alguém, a maioria das cabines exigem um cartão pré comprado, ou fichas, e ele não tem fundo de maneio para esses luxos.
O João não está inscrito na segurança social, vive do que lhe dão e os esmoleres não passam recibos.
O João bebe, sempre bebeu, mesmo na outra vida, acha mesmo que é a bebida a fonte de todos os seus problemas. Quando bebe, o que quer que venha à rede é peixe, fica horas sentado a contemplar o vazio.
O João vai inevitavelmente morrer em breve, no meio da rua, atropelado, ou cirrótico, ou enfartado…
Vai ser recolhido por uma ambulância, que o vai levar para um hospital central, lá chegado declara-se o óbito, em seguida leva-se o corpo que já foi João para a medicina legal para ser identificado, o que não vai acontecer, por lá fica, ninguém o vai reclamar…
O cão do João irá correr atrás da ambulância, chegará ao hospital e ficará à porta, à espera…»
Mas a luta por uma vida totalmente diferente não pára, a dignidade reconquistada é mais saborosa.
O Povo Vencerá!

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